Date: Janeiro 21, 2021

Author: Eu Consigo

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Um olhar diferente – Terapia Ocupacional e a pediatria

Texto: Inês Gomes

Fonte 1*

Conheço uma criança relativamente próxima que tem um diagnóstico de Paralisia Cerebral. Nunca é fácil receber uma notícia destas, não é fácil aceitar sendo que neste caso particular foi no parto, mas quando uma coisa destas acontece temos duas hipóteses: não aceitamos e a criança acaba por não ter grande qualidade de vida ou levantamos os braços e vamos à luta, não só por nós, familiares, mas por aquela criança que ainda não tem voz e somos nós a voz dela. Aceitamos e lutamos pela criança para que esta seja o mais feliz possível e tenha qualidade de vida. Foi a isto que eu assisti, a mãe desta criança teve forças suficientes e até hoje nunca desistiu. Se vocês vissem o sorriso que ela tem ou o que ela alcançou perceberiam o que estou a dizer quando digo que um acompanhamento desde o início é importantíssimo e só traz vantagens para as crianças.

Neste momento esta menina tem 11 anos e desde que nasceu é acompanhada por profissionais de diversas áreas entre as quais Terapia Ocupacional.

Muitas pessoas assistem às sessões de Terapia Ocupacional e inferem que o terapeuta está lá apenas a brincar com a criança, mas não é isso. Terapia Ocupacional na pediatria é muito mais. O terapeuta reinventa o “brincar” de modo a que a criança possa ter mais qualidade de vida e consiga alcançar coisas que as crianças típicas alcançam. O “brincar” é um meio para atingir a melhoria dos componentes de desempenho o que consequentemente promove uma maior autonomia e independência nas atividades do dia a dia. Não nos podemos esquecer que, enquanto crianças a atividade mais importante e mais significativa é o brincar e é esta atividade que faz as crianças desenvolverem muitas das competências que posteriormente demonstram como é o caso da criatividade, da imaginação com as brincadeiras do “faz de conta” ou a leitura e compreensão quando estas pedem para lhe derem um livro. Há tanta coisa por detrás de uma simples brincadeira, tantas competências utilizadas, mas acima de tudo uma grande aprendizagem. Através de uma brincadeira é possível observar e treinar inúmeras competências como é o caso da postura, da perceção, das habilidades manuais, do raciocínio, das relações afetivas e sociais, das componentes sensório-motoras, das componentes cognitivas, entre outras.

O terapeuta Ocupacional orienta a criança nas diferentes atividades da vida diária, estimula as suas competências e facilita a aprendizagem das competências em falta, adaptando o contexto, partilhando as estratégias definidas com os pais e educadores de forma a dar continuidades às sessões. Os cuidadores/familiares destas crianças são uma peça chave na reabilitação, visto que são quem passa mais tempo com as mesmas, ou seja, é importante que haja um ensinamento e um treino das estratégias fornecidas, não só para obter melhores resultados da intervenção, mas também para “poupar” os cuidadores de forma a que estes tenham tempo livre para eles e não prejudiquem a sua saúde.

Posso dizer que, no início, quando assistia às sessões, também não entendia o porquê da realização de certas atividades e muitas vezes me questionava se aquelas “brincadeiras” eram essenciais para a vida desta criança porque para “brincar” brincava eu em casa e não necessitava de me deslocar até às sessões. Mas rapidamente percebi que aquelas brincadeiras eram muito mais que isso, eram atividades que desenvolviam competências e quando comecei a perceber isto e a procurar respostas junto dos terapeutas, foi muito mais fácil entender a importância que tinha a Terapia Ocupacional e a continuação das sessões em casa, ou seja, da realização das atividades propostas pelo terapeuta em casa.

As atividades realizadas nas sessões tinham como objetivo facilitar o desenvolvimento neuropsicomotor e afectivo, através da construção de vínculos e de relações com outros. Além disso, estas representavam as vivências, organizavam e estruturaram a realidade externa e interna e ajudavam na consciencialização por parte da criança das dificuldades que esta tinha e como ultrapassá-las.

Quando o ambiente é favorável, mas a criança não consegue utilizar as suas habilidades para explorar esse ambiente, ou quando a criança tem potencial, mas os estímulos externos não são suficientes ou são desadequados, existe uma falha na interação entre o contexto e as habilidades, o que consequentemente provoca atrasos no desenvolvimento. Desta forma, torna-se essencial adaptar o contexto. O terapeuta adapta o contexto da criança desde a casa até à escola para que este possa usufruir da educação (direito que todos temos). Pode adaptar materiais para que esta consiga escrever por exemplo ou adaptar a cadeira para esta ter uma postura mais correta e conseguir assistir a uma aula por exemplo.

Durante todos estes anos, a Terapia Ocupacional ajudou esta criança a adaptar diversas coisas, como o é o caso da colocação de um engrossador nos talheres e no lápis para que esta consiga escrever na escola, ajudou na adaptação do plano curricular em conjunto com a professora de ensino especial, na escolha da cadeira de rodas e acessórios mais adequados para a mesma, no treino de mobilidade de cadeiras de rodas entre outras coisas.

Atividades que para nós são intuitivas como o tomar banho ou o vestir, foram treinadas inúmeras vezes e apesar das dificuldades apresentadas pela criança em conseguir vestir as calças, abotoar os botões, lavar os pés ou a cabeça, conseguir calçar-se, houve uma persistência de ambas as partes e atualmente esta é quase independente nestas atividades.

Atualmente uma das coisas mais importantes para esta pré-adolescente é a inclusão social visto que esta foi para o 5º ano, mudou de escola, de colegas de turma e não é uma etapa fácil. Mas desde criança que os profissionais que a acompanham, assim como os familiares, trabalham para que esta se consiga sentir incluída na sociedade e realize atividades com os seus colegas, mesmo que estas sejam adaptadas.

Com isto não estou a querer dizer que todas as crianças vão ter ganhos, algumas não irão ter, mas irão manter as competências que possuem ou caso a patologia que estas apresentem seja degenerativa é tentar proporcionar a melhor qualidade de vida possível.

Como este exemplo existem milhares e caso queiram saber mais existe uma associação de pediatria (//www.spp.pt/)  e também existem as equipas de intervenção precoce. Estas equipas intervêm com crianças até aos 6 anos de idade, com alterações ou em risco de apresentar alterações nas estruturas ou funções do corpo, tendo em linha de conta o seu normal desenvolvimento. Estas tentam assegurar a todos o direito à participação e à inclusão social.(Ministério Da Educação, 2010)

Estas equipas pressupõem assegurar um sistema de interação entre as famílias e as instituições e, na primeira linha, as da saúde, para que todos os casos sejam devidamente identificados e sinalizados tão rapidamente quanto possível. Posteriormente à sinalização, devem ser acionados os mecanismos necessários à definição de um plano individual (Plano Individual de Intervenção Precoce – PIIP) atento às necessidades das famílias, a ser elaborado por Equipas Locais de Intervenção (ELI) multidisciplinares, que representem todos os serviços que são chamados a intervir. O PIIP é um instrumento para as famílias e para os profissionais envolvidos, onde é estabelecido um diagnóstico adequado, tendo em conta não apenas os problemas, mas também o potencial de desenvolvimento da criança, assim como as alterações necessárias nos contextos da criança. (Ministério Da Educação, 2010)

Enquanto terapeuta ocupacional, a pediatria é das áreas que mais me fascina e na qual quero vingar e construir uma carreira, pelo desafio que é uma sessão como uma criança, pela criatividade, pela energia, pela imaginação que é necessária para que a criança se mantenha envolvida na sessão. Na minha opinião para se trabalhar com esta população é preciso gostar mesmo e aceitar novos desafios todos os dias e em todas as sessões.

Obrigada pela vossa atenção e não se esqueçam que temos de lutar todos os dias por aqueles que não têm voz sejam crianças, adultos ou idosos e através de pequenas coisas no nosso dia a dia já conseguimos ajudar bastante!

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