Tive um AVC. E agora?

Abordagem da Terapia Ocupacional – apresentação de um caso

Neste artigo damos-lhe a conhecer a abordagem da Terapia Ocupacional através da apresentação de um caso – o de Jorge. Aqui poderá perceber o raciocínio clínico de um terapeuta ocupacional e de que forma este serviço pode ajudá-lo a recuperar a sua autonomia nas actividades do dia-a-dia.

 

Jorge, 45 anos, e a terapeuta Jameela

 
Jorge, 45 anos, dono de uma pequena empresa dedicada ao passeio de cães, vive num apartamento T2 com a sua companheira, ao qual tem acesso através de um elevador. Não tem filhos, mas possui uma vasta rede social. Foi transferido dos cuidados intensivos para uma unidade de reabilitação em regime de internamento, com diagnóstico de acidente vascular cerebral (AVC), onde começou a ser acompanhado pela terapeuta ocupacional Jameela.

Avaliação – sequelas e consequências resultantes

 
Jorge identificou as seguintes ocupações como as 5 mais importantes para ele:

1. Tomar banho e vestir-se sem ajuda

2. Ser autónomo nas suas “necessidades de casa de banho”

3. Preparar refeições

4. Voltar a trabalhar

5. Jogar às cartas com os amigos

No que diz respeito à autoavaliação do desempenho nessas ocupações, Jorge classifica entre 3 a 5 (numa escala em 10). No que diz respeito à sua satisfação face a esse desempenho, Jorge classifica de 1 a 2 as ocupações supracitadas.

Foi ainda avaliado o desempenho ocupacional nas actividades de autocuidado e durante a preparação de refeições, tendo sido averiguado que o pouco uso do membro superior esquerdo (lado dominante para o senhor) e que o neglect unilateral esquerdo (dificuldade de perceber estímulos provenientes do lado esquerdo, apesar de a capacidade visual não apresentar qualquer défice) representavam factores fortemente limitadores do desempenho de Jorge.

Também foram avaliadas as capacidades de desempenho e os factores pessoais do cliente, tendo sido obtidos os seguintes resultados:

– Dificuldade em combinar movimentos do ombro, cotovelo e antebraço de modo a alcançar objectos posicionados à frente, de lado ou sobre a cabeça;

– Fraca capacidade para alcançar, agarrar e transportar objectos utilizando o membro superior esquerdo;

– Moderado neglect unilateral esquerdo com fraca consciência do mesmo;

– Diminuição da sensação táctil no membro superior e mão esquerda;

– Evidência mínima de depressão

 Objectivos estabelecidos

 
Tendo por base as principais áreas de interesse de Jorge, os resultados obtidos com a avaliação e o ambiente domiciliar, os objectivos de tratamento foram desenvolvidos de modo a promover a autonomia no desempenho de actividades de autocuidado, preparação de refeições, actividades relacionadas com a área laboral e actividades de lazer (jogar às cartas).

Intervenção – planeamento

 
Face à evidência científica das diferentes abordagens existentes, o terapeuta em questão seleccionou as seguintes para maximizar a participação de Jorge nas tarefas da vida diária:

– Intervenções baseadas na ocupação para promover o desempenho nas actividades da vida diária (AVDs);

– Treino repetitivo de tarefas para promover movimentos funcionais do membro superior e mão de forma a sustentar o desempenho;

– Treino de rastreamento visual (visual scanning training) para promover desempenhos e compensar o neglect unilateral;

– Combinação de treino orientado para as tarefas (como por exemplo o treino repetitivo de tarefas) com a estratégia cognitiva – observação da acção – para promover a funcionalidade do membro superior esquerdo e para que possa praticar sozinho.

Intervenção – sessões

 
1ª sessão – de manhã: no quarto do hospital

Uma vez que Jorge identificou várias ocupações de autocuidado como muito importantes, a primeira sessão foi orientada para a prática de tarefas de duas ocupações seleccionadas pelo cliente (tomar banho e vestir-se) no seu quarto de hospital. A terapeuta, Jameela, começou por descrever as duas ocupações e pediu a Jorge que previsse a duração de cada uma e qual o nível de assistência que ia precisar (treino de consciencialização). O cliente respondeu que iria precisar de 10 minutos para cada e que apenas iria precisar de supervisão. Assim durante o envolvimento de Jorge nas tarefas, a terapeuta apenas deu sugestões verbais e físicas, quando necessário. Essas sugestões foram necessárias para encorajar o uso do membro superior esquerdo, localizar objectos no lado esquerdo do ambiente e para a conclusão das tarefas em geral.

2ª sessão – de tarde: no serviço de Terapia Ocupacional

Já na clínica de reabilitação, no serviço de Terapia Ocupacional, o objectivo da sessão centrava-se na recuperação e promoção da funcionalidade da mão e membro superior esquerdo para o envolvimento na ocupação. Os interesses de Jorge é que guiaram a selecção das actividades para o treino de repetitivo de tarefas. O objectivo era maximizar repetições de alcançar, agarrar, transportar ou manipular, e largar diversos objectos significativos para a tarefa em questão, tais como:

– Manipulação do rato de computador: organizar icons no ambiente de trabalho do computador portátil do cliente; introduzir dados numa folha de cálculo; entre outras;

– Manipulação de objectos de banho e de autocuidado: organizar esses objectos no lavatório, abrir e fechar recipientes, entre outros;

– Jogar às cartas: dar, virar e empilhar as cartas, entre outras;

Estas tarefas eram graduadas com o intuito de fornecer o desafio adequado ao cliente (just-right challenge), isto é a actividade não pode ser muito simples, mas também não pode ser demasiado complicada ao ponto de levar o cliente a desistir com a frustração sentida. São exemplos dessa graduação os seguintes: aumentar no número de objectos manipulados; alterar a sua localização para encorajar o cliente a alcançá-lo a distâncias maiores e em diferentes planos de movimento; alterar o tamanho, o formato e o peso dos objectos; e variação dos requisitos de velocidade.

3ª sessão – de manhã: continuação do treino de consciencialização

O treino de consciencialização de desempenho é feito através da previsão dos métodos que vão ser utilizados e da duração da tarefa. É também realizado através do feedback obtido através da visualização de vídeos que demonstram o desempenho de Jorge aquando do seu envolvimento nas tarefas. A terapeuta explicou-lhe ainda em que consistia o treino de rastreamento visual. Uma vez que o cliente se mostrou receptível a este tipo de treino, Jameela ensinou-lhe estratégias do mesmo para serem adoptadas no seu ambiente de trabalho (ecrã de trabalho e secretária) e mais tarde para as actividades de culinária e autocuidado.

4ª sessão – de tarde: atividades na cozinha de AVDs

A terapeuta Jameela pediu a Jorge que identificasse algo que gostasse de comer ao lanche. A intervenção, baseada na ocupação, de fazer uma salada foi escolhida por ser significativa para o cliente (algo que desejava fazer sozinho e que gostava de fazer). A terapeuta organizou a tarefa e os respectivos materiais de forma a encorajar Jorge a usar o membro superior esquerdo para ajudar e assistir durante toda a sessão. Por exemplo, alguns objectos foram colocados em ambos os lados da mesa, encorajando a procura dos mesmos em toda a mesa; a Jameela deu-lhe ainda uma ajuda técnica que permitia que Jorge descascasse os vegetais com a mão esquerda. O cliente foi ainda encorajado a realizar as múltiplas repetições necessárias para cortar os vegetais com a mão esquerda.

Para além das sessões individuais a Jameela ensinou-lhe algumas estratégias e tarefas que pudessem ser praticadas em casa. Ela elaborou um programa individualizado que podia ser posto em prática pelo Jorge ou com a ajuda da sua companheira, fora das sessões individuais. Esse programa incluía:

– Ver vídeos de desempenhos no seu computador, seguidos da realização da própria tarefa de manipular objectos de cozinha e de autocuidado

– Forneceu-lhe uma caixa com diversos objectos relacionados com os objectivos identificados por Jorge como uma baralho de cartas, uma escova de cão, um abre latas, caneta e papel, moedas e outros utensílios; e encorajou-o a realizar o treino repetitivo de tarefas com esses objectos durante o período de baixa.

Resultados

 

Os objectivos estabelecidos a priori por Jorge em conjunto com a terapeuta Jameela foram todos alcançados até ao momento que teve alta da unidade de reabilitação. A pontuação obtida com a autoavaliação de desempenhos e de satisfação também subiram, assim como nos instrumentos aplicados para avaliar as competências de desempenho.

O sucesso de Jorge foi obtido através de uma intervenção centrada no cliente, tendo por base a ocupação e a evidência científica.

Os novos objectivos de desempenho ocupacional do Jorge continuaram a ser acompanhados por uma equipa de Terapia Ocupacional de apoio domiciliário. O cliente e a sua companheira foram educados sobre sinais e sintomas de depressão, tendo sido indicados os recursos dentro da sua comunidade que dão resposta a esses necessidades se emergirem.


Quer saber de que forma a Terapia Ocupacional podia ajudar no seu caso específico? Contacte-nos.


 

Artigo traduzido e adaptado a partir de: Nilsen, D., Gillen, G., Arbesman, M., & Lieberman, D. (2015). Evidence Connection—Occupational therapy interventions for adults with stroke. American Journal of Occupational Therapy, 69 (5), 1-3.

Se gostou deste artigo veja também: Recuperar de um AVC – a ajuda da terapia ocupacional 

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