Date: Dezembro 17, 2014

Author: Eu Consigo

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ALZHEIMER –Não interrompa, por favor.

Como se sente quando está concentrado a pensar nalguma coisa e alguém o interrompe, levando-o a “perder” o pensamento que estava a ter? Sente-se perturbado, ou até irritado? É exactamente assim que fica um doente de Alzheimer quando é interrompido pelo seu cuidador.

Bob DeMarc é cronista do Alzheimer Living Room. Nas suas crónicas, ele descreve a sua vida enquanto cuidador de Dotty, a sua mãe, que viveu com Alzheimer. Este cuidador demorou nada menos que quatro anos a perceber como é pouco saudável interromper uma pessoa que tem graves alterações de memória.

No caso dele, “interromper” refere-se a travar um comportamento de uma pessoa que tem Alzheimer ou demência. Isso costumava acontecer sempre que Dotty fazia alguma coisa que lhe parecia estranha. Por exemplo, abrir a porta do congelador e ficar a olhar lá para dentro, examinando a comida. Isso parecia-lhe estranho. Tanto, que ele interrompia-a, pedindo-lhe que fechasse a porta do congelador.

A reacção de Dotty era sair da cozinha subitamente, ir para o quarto e meter-se na cama, recusando-se a sair. Confusão, infelicidade, sentimento de exclusão era o que Dotty sentia. Não conseguia perceber por que Bob estava “a ser tão mau”. A reacção de Bob era ficar confuso e por vezes zangado. Sentava-se na sala a sentir-se triste e confuso. Afinal – pensava ele – tinha-lhe pedido educadamente que fechasse a porta; não é bom ter a porta do congelador aberta durante muito tempo.

Só muito mais tarde, quando começou realmente a colocar-se no lugar da mãe e a tentar ver o mundo através dos olhos dela é que Bob finalmente percebeu que, para quem tem Alzheimer, alguns comportamentos, que parecem estranhos aos outros, não são nada estranhos. Se não temos a capacidade de compreender, devemos pelo menos fazer o possível por não interromper. Para Bob, foi muito mais eficaz simplesmente ficar simplesmente ao lado da mãe, sem falar e observando.

A lição que tirou foi que, a não ser que Dotty estivesse a fazer alguma coisa que pudesse magoá-la ou a destruir alguma coisa, deixaria que ela continuasse a fazer o que lhe parecia importante fazer.

Com o passar do tempo, a adopção deste comportamento por parte do cuidador permitiu-lhe diminuir o stress. Bob passou a sentir-se feliz enquanto observava Dotty, admirando a forma como ela conseguia usar o cérebro, os olhos e as mãos concertadamente.

Interromper, perturbar ou corrigir conduzia sempre à fuga para o quarto ou a um comportamento mais agressivo, quando Dotty se zangava com o filho e lhe dizia “vai-te embora, não te quero aqui, sei tomar conta de mim”.

Bob e Dotty passaram a ter muito mais dias bons quando Bob conseguiu perguntar a si próprio não o que se passava com a mãe, mas o que se passava com ele. “Por que estou a fazer disto um problema? Por que não posso aceitar que ela quer fazer isto”?

Aceitar que quem tem Alzheimer tem também direito a viver a sua vida, e aceitar como normal um comportamento mesmo que não o consigamos compreender, pode ser a chave para substituir tristeza e agressividade por sorrisos, e dias infelizes por dias bons. Essa é, pelo menos, a experiência de Bob e Dotty.

 

Este artigo teve como base de adaptação o texto “Good Caregiver, Bad Caregiver” do Alzheimer’s Reading Room.

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