Intervenção da Terapia Ocupacional

O terapeuta ocupacional na alta hospitalar

Por que razão em Portugal não se faz como em países como a Inglaterra, onde a alta hospitalar é habitualmente acompanhada por um terapeuta ocupacional, profissional que avalia se a pessoa cumpre os requisitos para uma vida minimamente autónoma?

Um estudo independente realizado por investigadores de política de saúde publicado pela Medical Care Research and Review (Rogers, Bai, Lavin & Anderson, 2016) e citado pela AOTA[1] concluiu que “a terapia ocupacional é a única rúbrica de despesa na qual o aumento de custo tem um significado estatístico nas taxas de readmissão de doentes” para as três condições de saúde estudadas: falência cardíaca, pneumonia e enfarte agudo do miocárdio.

Os autores sublinham que “a terapia ocupacional coloca um foco único e imediato nas necessidades funcionais e sociais do doente, factores que podem contribuir para a readmissão hospitalar, se deixados sem tratamento adequado. Para eles, a terapia ocupacional “coloca o foco em factores vitais para as taxas de reinternamento – poderá o doente ficar em segurança n o seu próprio ambiente após a alta hospitalar?”

Isto significa que é imprescindível no momento da alta colocar questões como se a pessoa consegue deslocar-se sozinha, usando um produto de apoio? Consegue ir à casa de banho sozinha? Os cuidadores estão habilitados para realizarem as tarefas básicas de prestação de cuidados? Se a pessoa está acamada, sabem como posicioná-la no leito, conseguem transferi-la em segurança, conhecem a forma mais fácil e segura de fazer a cama?

Quando existem dúvidas sobre se o grau de autonomia da pessoa é suficiente para ter alta, o terapeuta ocupacional precisa de se deslocar a casa da pessoa, conversa com os cuidadores, avalia o espaço no qual a pessoa vive, recomendar adaptações, escolher e treinar o uso de produtos de apoio, treinar os cuidadores para que estejam preparados a receber o seu familiar em casa.

Infelizmente em Portugal o papel do terapeuta ocupacional na alta hospitalar ainda não é comummente reconhecido, sendo muito raros os casos em que este tem um papel a desempenhar neste momento difícil para o utente e os seus cuidadores. A alta clínica e social preparam o doente para ir para casa num dia estipulado, muitas vezes sem a concordância da família, informando-o das alternativas de serviços disponíveis nas redes sociais da sua zona de residência. O resto, fica a cargo do cuidador e do doente, que muitas vezes se sentem desamparados. A somar à doença existe um sentimento de abandono difícil de ultrapassar.

Mas não é só o empobrecimento da qualidade de vida do doente e da família no período pós-alta que resulta desta situação. O aumento dos reinternamentos hospitalares que se tem vindo a verificar no nosso país, bem como o incremento da taxa de mortalidade que lhes está associada[2], são razões mais que suficientes, e suficientemente documentadas, para que a gestão hospitalar comece a olhar com outros olhos para o profissional de terapia ocupacional.

 [1] American Occupational Terapy Association

[2] Sousa Pinto, B., Gomes, A., Oliveira, A., Ivo, A., Costa, G., Ramos, J., Silva, J., Carneiro, M., Domingues, M. Cunha, M. , Costa-Pereira, M., Freitas, A., Reinternamentos Hospitalares em Portugal na Última Década, Acta Med Port 2013

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