Date: Junho 20, 2017

Author: Eu Consigo

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A ti, terapeuta, o que é que te escapou hoje?

Estava sentada no carro a reler as minhas notas para a minha próxima cliente. “Dorothy” de 75 anos de idade apresentava artrite reumatóide severa. Apesar desta ser a minha primeira visita, ela tinha um longo historial de Terapia Ocupacional e Fisioterapia ao domicílio à medida que a sua condição foi piorando. Já à porta de casa de Dorothy, bati e esperei e depois bati mais uma vez. Será que ouvi uma voz? Quase de certeza que ouvi uma senhora a dizer que a porta estava aberta e que podia entrar.

A minha cliente estava a cerca de a 5 passos atrás da porta enquanto me dava as boas vindas e reconhecia-me como a sua nova terapeuta ocupacional. Sentámo-nos na mesa da cozinha para iniciar a avaliação. Fiz as minhas perguntas habituais e avaliei as suas capacidades para executar as actividades da vida diária. Enquanto discutíamos o plano de intervenção, sentia-me incomodada com alguma coisa. Aquela sensação em que parece que há algo errado mas não conseguimos identificar ao certo o que é. A sessão terminou e eu ainda não tinha conseguido perceber o que era. Suspirei e arrumei as minhas coisas sabendo que mais tarde ou mais cedo iria acabar por perceber o que me incomodava.

À medida que ia avançando para a porta da rua finalmente percebi o que estava errado. Virei-me para a Dorothy e perguntei-lhe por que razão,  em vez de abrir a porta quando eu cheguei, gritara para eu entrar. Ela respondeu que não era capaz de abrir a porta. Perguntei-lhe de que forma saía e entrava de casa. A minha cliente, como não era capaz de abrir a única porta de acesso à rua, era prisioneira da sua própria casa. Dorothy tinha que ligar para um dos vizinhos, até que um deles respondesse e tivesse disponibilidade para ir-lhe abrir a porta. Perguntei-lhe se este era um problema recente e afinal, desde que ela estava naquele apartamento, havia 10 anos, nunca tinha sido capaz de abrir a sua própria porta de casa.

Perguntei-lhe se ela conseguia destrancar a porta e rodar a maçaneta. Ela respondeu que sim, mas não as duas coisas ao mesmo tempo. A dificuldade estava na força para puxar a porta. Experimentei abri-la e apercebi-me que até eu tinha que me preparar para abri-la pois era difícil puxá-la. Depois de aberta a porta não era assim tão pesada, então qual era o problema? Descobri que havia um trinco magnético à volta da porta que era extremamente forte e precisava de mais força para se abrir do que aquela que a minha cliente tinha.

Estava determinada em resolver aquele problema no próprio dia, por isso apressei-me para o meu carro para ver o que tinha no porta-bagagens que pudesse ajudar. Voltei uns minutos mais tarde com um rolo de fita adesiva. Enrolei cuidadosamente cerca de um quarto do trinco magnético com a fita. A Dorothy experimentou abrir a porta mas ainda não era capaz de o fazer. Enrolei mais uma vez o trinco, desta vez cobrindo cerca de metade da superfície. Dorothy tentou de novo e, pela primeira vez em 10 anos, foi capaz de abrir a porta! Claro que aquele trinco magnético era uma forma de precaução em caso de incêndio. Assim, antes de me ir embora do apartamento perguntei ao senhorio se podia inspeccionar e ele ligou para o quartel de bombeiros da zona. Ambos concordaram que o trinco ainda estava adequado e funcional.

O meu conselho para todos os Terapeutas Ocupacionais….

Não se esqueçam do quadro geral. Eu sei que enquanto TO as sessões ao domicilio podem ter um horário rígido e há muito para fazer nesse período. Quando tenho um horário inflexível tendo a focar-me nas competências da mão; no entanto é importante que os TOs dêem um passo atrás e observem o ambiente do cliente.

Não pensem que por aquele cliente já ter sido acompanhado por outros colegas as suas necessidades já foram todas avaliadas e respondidas. Às vezes, quando vamos depois de outro colega assumimos que a primeira avaliação estava completa e precisa. Mas os clientes mudam e até o melhor terapeuta pode deixar escapar informação pertinente, por isso tentem começar cada visita sem ideias pré-concebidas.

Não se esqueçam de ter no porta-bagagens materiais que possam promover a vossa criatividade. Como terapeuta ocupacional ao domicílio, o meu porta-bagagens está cheio de materiais e ferramentas por isso garantam que vosso também! Podia falar sobre isto eternamente mas para já não se esqueçam de colocar fita adesiva na lista dos vossos materiais.

Texto traduzido e adaptado de http://www.ottoolkit.com/blog/what-did-you-overlook-today/ por

Joana Emauz Madruga

Terapeuta Ocupacional licenciada pela Escola Superior de Saúde de Alcoitão, com pós-graduação em Terapias Assistidas por Animais, pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Possui formação em Primeiros Socorros e Suporte Básico de Vida, pela Escola Nacional de Bombeiros. Tem ainda formações complementares em Reeducação do Membro Superior nas Perturbações Neurológicas e em Estimulação Cognitiva e Sensorial para pessoas com demência. A principal área de actuação é a Geriatria intervindo com idosos com e sem patologias diagnosticadas.

 

 

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