A espontaneidade e o riso na prática da Terapia Ocupacional

Cedo na minha prática como Terapeuta Ocupacional trabalhei em domicílios com pacientes de todas as idades, incluindo crianças. Um dos que nunca vou esquecer era um menino de 10 anos chamado “Paul”. Paul tinha recebido um diagnóstico de cancro havia um ano e encontrava-se em estado terminal. Tinha tumores na espinal medula e estava confinado a uma cadeira de rodas. Como estava distante e deprimido, o seu oncologista tinha recomendado Terapia Ocupacional para que ele brincasse e se envolvesse.

Eu estava determinada a pôr um sorriso na cara desta criança. Falei com ele e com a mãe acerca das actividades de que Paul tinha gostado antes da sua doença. Todos os dias quando ia a caminho de casa dele parava no McDonalds para lhe levar algo de que gostava. Também planeava uma actividade nova para cada dia – jogos, puzzles e trabalhos manuais eram rotativos. Experimentei temas – dinossauros, naves espaciais e tractores. Tentei cantar, ler, até fantoches. Mas a cada dia a nossa hora acabava da mesma maneira que começara, com pouco interesse ou entusiasmo da parte de Paul. Dia após dia o peso da sua doença ganhava a batalha.

Um dia, antes da minha visita, vi uma pinça de alcance no meu porta-bagagens e decidi levá-la. As necessidades diárias do Paul eram satisfeitas pelos pais, mas eu queria estimulá-lo a ser um pouquinho mais independente. Estávamos sentados à mesa da cozinha enquanto a mãe dele lavava a loiça. Tentei que o Paul se interessasse por usar a pinça para pegar numa batata frita, ou no livro que eu tinha trazido, ou no jogo que queria que ele jogasse. Como de costume, ele permaneceu desinteressado e recolhido. Experimentou a pinça a contragosto e voltou a pousá-la dizendo que não conseguia.

Nesse momento o telefone tocou e a mãe de Paul saiu da cozinha. Usei a pinça para apanhar o pano da loiça que estava na bancada e passeia-a ao Paul. Segredei-lhe “esconde-o debaixo da mesa”. Os olhos dele iluminaram-se e o seu sorriso rasgou-se cada vez mais quando a sua mãe voltou à cozinha e começou à procura do pano! Quando ela se pôs a abrir gavetas, à procura, Paul desatou a rir à gargalhada e agitou o pano no ar. O seu pai, que trabalhava a partir de casa nesse dia, correu até à cozinha com lágrimas nos olhos; não ouvia o filho rir havia meses. Deixei a pinça com o Paul e ele usou-a para provocar os pais e os irmãos até à sua morte duas semanas mais tarde. Quando os pais de Paul me ligaram a informar que ele falecera, também me agradeceram por trazer um pouco de diversão e diabrura aos últimos dias de um menino de 10 anos.

Esta experiência cedo na minha carreira ajudou-me a crescer enquanto Terapeuta Ocupacional de três formas importantes.

Abrace a espontaneidade. Por vezes alguns momentos espontâneos geram os resultados de que está à procura, por isso tente sair da sua zona de conforto.

Lembre-se de quem é o seu utente. Os miúdos são miúdos e esta diabrura sem maldade trouxe ao de cima o miúdo que havia no Paul durante uma altura muito dura da sua vida.

Ria mais. Tente trazer alegria e riso aos encontros com os seus utentes, porque não é o que lhes ensinamos, mas como o fazemos, que é mais recordado.

Cheryl Hall TO, autora de The Occupational Therapy Toolkit – Patient Education Handouts and Treatment Guides

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O que é a Terapia Ocupacional?

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