Date: Setembro 1, 2017

Author: Eu Consigo

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6 atitudes que fazem a diferença para pessoas cegas

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O convívio com pessoas que tenham alguma deficiência tem sido cada vez mais frequente em nossa sociedade. Sem delongas sobre o mapa do tempo de como a deficiência era considerada no século passado, leia-se antes de 2001, atualmente parece haver maior autovalorização, aceitação e satisfação de ser quem se é.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), há entre 40 a 45 milhões de pessoas cegas e 135 milhões com limitações severas de visão no mundo.

No Brasil, o censo demográfico do IBGE (2010) constatou mais de 6,5 milhões de pessoas que apresentam alguma deficiência visual em território nacional.

A interação com pessoas cegas no trabalho, na família ou na rua é algo novo para muita gente.

Lembro-me de uma vez retornando da padaria avistei uma senhora cega com sua bengala andando na mesma calçada. Apressei-me e quando cheguei ao seu lado me apresentei.

Eu: Boa tarde, meu nome é Martim. Tudo bem com a senhora? Ela virou seu rosto em direção ao meu e disse: Olá Martim. Eu sou a Sueli. Tudo bem, e com você? Eu: Tudo bem. A senhora precisa de ajuda? Ela: Sim. Preciso. Estou indo para a minha casa. Estou com a bengala, mas se você pudesse me conduzir eu agradeceria. Eu: Claro. Como eu posso auxiliar a senhora?

E a partir daí ela me ensinou. Fomos até a portaria do prédio dela. Curiosamente duas quadras de minha casa.

Confesso que durante os minutos que caminhávamos tive a sensação de ter recebido uma aula da Sra. Sueli.

Pensei: essa é somente uma situação. E as demais?

O tempo passou e iniciei a pesquisa “Crenças corporativas sobre pessoas com deficiência” com base em 300 relatos de colaboradores com deficiência auditiva, física, intelectual e visual de empresas públicas e privadas.

A primeira entrevista foi com um homem cego. Durante a conversa agradável e elucidativa, a Sra. Sueli me vinha à mente.

Imaginei que assim como eu até aquele momento, muitas pessoas não tem qualquer ideia como a sua atitude pode interferir positivamente em um determinado contexto com pessoas cegas.

Nesse sentido, compartilho agora com você 06 situações comuns onde a sua participação ativa fará a diferença.

O foco é promover informação provinda de pessoas que vivem com a ausência e déficit de visão no intuito de conhecimento, alerta e bem-estar entre todos, isto é, pessoas com e sem deficiência.

Preparados? Vamos lá!

Se você estiver conversando com uma pessoa cega e de repente sair do lado dela, avise-a.

A pessoa cega não tem como saber que você se ausentou. Se você não falar que se ausentará, seja para ir ao banheiro ou entrar no ônibus, o silêncio se fará presente e aí sim, ele (a) perceberá a sua ausência.

Dependendo da acústica do ambiente, a pessoa pode perceber que você está se afastando pelo ruído do seu calçado no piso. Mas e num ponto de ônibus com tantos ruídos, como ouvir?

Há também os casos (a maioria, diga-se de passagem) que a pessoa se ausenta sem avisar, e a pessoa cega faz outra pergunta, pois acredita que ainda está ali.

Você pode evitar essa situação. Avise-a.

Como exemplo, você pode dizer “Maria, meu ônibus está chegando. Vou ter que entrar. Até amanhã!” ou “João, vou à minha mesa pegar o relatório e volto já, ok?”.

No primeiro contato: atenção ao cumprimento.

Se você estender a sua mão antes, provavelmente ficará encabulado quando perceber que ela “ficou no ar”. Isso aconteceu comigo na primeira entrevista.

Já na segunda, entrei na sala e disse Boa tarde Patrícia, eu sou o Martim. Ela sorriu e disse Prazer, Martim.

Nesse interim, ela estendeu o braço direito apontando a mão em minha direção e simultaneamente virou seu rosto. Senti que o cumprimento era de aperto de mão + beijinho no rosto.

Após o cumprimento ela disse Senta pra gente conversar. Em que eu posso ajudar?

Situação nova. Sem mãos estendidas no ar. Cada pessoa tem a sua maneira preferida de cumprimentar ou saudar os outros.

Seguindo esse raciocínio, o ator Edgar Jaques cego desde 03 anos comenta em seu perfil no facebook a questão dos “beijos na bochecha” no cumprimento.

*A publicação do post abaixo foi autorizada pelo Edgar. Grifei a parte relacionada ao cumprimento.

Numa conversa, fale diretamente com a pessoa cega e não com a pessoa que a acompanha.

A pessoa cega não necessita de intérprete.

A presença de um acompanhante (amigo, parente ou colega de trabalho) não está relacionada à tradução de perguntas durante um diálogo.

É comum perguntar algo para o (a) acompanhante responder pela pessoa cega.

Pare e pense: se a ela (e) fala e escuta, por que você perguntaria algo sobre a mesma para o (a) acompanhante?

Sim, há casos onde a ausência da fala, surdez e cegueira estão presentes.

Porém, na ausência dessas condições a comunicação deve ser estabelecida entre você e a pessoa.

Caracterizar novos ambientes e situações. Detalhes são sempre bem-vindos!

Imagine que vocês estão no coffee-break de um curso.

Durante a pausa, doces, salgados e bebidas estão disponíveis para os participantes. Você sabe tudo que está sendo oferecido. O seu colega cego não.

Coloque-se na situação dele (a). Certamente você gostaria de saber tudo que está sendo servido, ok?

Então, caracterize o ambiente, local e situação para o seu colega. O maior número de informações auxilia a pessoa saber exatamente o que está acontecendo ao redor.

Para facilitar, imaginemos que a sua colega cega chama-se Luciana.

Você pode dizer Luciana, vamos à mesa de doces e frios.

Chegando a mesa, informe o que você vê: Na sua direita há bolachas de chocolate, mini pães, manteiga e geleia de framboesa. Na sua esquerda, tem café, suco de maracujá e água gelada. Oque você quer?

Percebe como uma simples atitude pode facilitar aquele momento para a sua colega?

Importante: Ao indicar “à direita” ou “à esquerda” a referência deve ser a da pessoa cega e não a sua.

Avise a existência de degraus, pisos escorregadios, obstáculos e buracos

Embora a bengala antecipe a percepção de alterações estruturais durante o trajeto, a pessoa cega pode ser poupada deste tipo de surpresa.

Um entrevistado relatou Eu estava na calçada aguardando o sinal abrir. Senti que havia outras pessoas ao meu lado. Atrás de mim escutei dois rapazes conversarem. Um disse: Será que ele vai cair? O outro: Não sei, vamos ver se ele desvia do buraco.

Nessa hora percebi que havia um buraco no trajeto. Ninguém avisou. Apesar de sentir certa malícia na conversa entre os dois rapazes, o diálogo foi útil, pois serviu para eu saber que havia um buraco e teria que desviar. Decidi não perguntar. Atravessei e não caí no buraco.

Você pode ter se assustado ao ler o relato acima. Eu também. Não entendi porque os rapazes não alertaram sobre o buraco no trajeto. O entrevistado também poderia ter perguntado para alguém ao lado.

Julgamentos sobre o comportamento humano a parte, foquemos em nossa consciência e pratiquemos o bem.

Não é uma questão de puritanismo ou qualquer rótulo, e sim, poupar o nosso próximo de algo que você está vendo que pode prejudicá-lo ou machucá-lo.

Em síntese, se você está em ambiente particular ou público e vê alguma alteração estrutural que pode levar a pessoa cega a uma queda, trombada, batida ou algo do tipo, faça uso de sua voz e avise-a antes que seja tarde demais. Simples assim!

É natural usar a palavra “ver” 

Muitas pessoas tendem a evitar o verbo “ver” (conjugado em vários tempos) em uma conversa com uma pessoa cega. Quando isso ocorre é comum se desculpar posteriormente. Calma. Sem crises!

Perguntar à uma pessoa cega se ela (e) viu determinada notícia ou um filme não configura desrespeito. Você viu o filme que passou ontem?, Você viu que cena bonita no fim do capítulo? Tudo depende da intenção e diálogo.

A força do hábito é maior nessas horas. Você diz a palavra “ver”, depois lembra que a pessoa não vê e bate o constrangimento. Tudo isso em segundos.

No restaurante de uma instituição com um colaborador cego, após a escolha da refeição no balcão self service, eu disse Estou indo para a mesa e ele Onde? e eu ingenuamente respondi Ali e apontei para a mesa.

Nessa hora, lembrei-me que ele não enxergava.

Fiquei sem graça e antes que eu tentasse responder de outra maneira, um colaborador percebendo a situação e que eu era um visitante disse Martim, pode ir para a mesa que eu levarei o Rodrigo.

Já na mesa, a primeira coisa que fiz foi desculpar-me e ele sabiamente disse Martim, relaxa! Força de expressão. Não há nenhum problema você ter dito “ali” e apontar a mesa. Absolutamente natural, esperado e mais comum do que você imagina. Isso ocorre devido a falta de convivência com pessoas com deficiência visual. E outra, até pessoas que convivem diariamente conosco também dizem “ali” e apontam para a mesa. Tá tudo bem, meu caro.

As situações acima são apenas uma parte diminuta do repertório cotidiano que envolve as relações entre pessoas com e sem deficiência visual.

Evidente que há tantas outras conhecidas e desconhecidas por muitos de nós.

Fato é que na maioria das vezes agimos por impulso sem conhecimento ao tentar auxiliar uma pessoa com ausência ou déficit da visão.

Aprender é sempre o melhor caminho. Estamos aprendendo uns com os outros.

No entanto, um mundo inclusivo não depende apenas de conhecimento, mas principalmente de consciência individual e ação.

Um forte abraço e até a próxima!!

Texto de Martim Pinto publicado com o consentimento do mesmo. Poderá conhecer outros textos do Fisioterapeuta Martim Pinto AQUI.

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