Date: Dezembro 4, 2018

Author: Eu Consigo

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5 Coisas que os Clientes e os Terapeutas Ocupacionais deveriam sempre pôr em causa

A nossa profissão fundou-se em 1917 quando os sobreviventes da primeira grande guerra voltavam para o seu país com diferentes problemas de desempenho. Era necessário voltar a dar significado à vida daqueles homens e arranjar soluções para que pudessem fazer as atividades que eram inerentes ao seu quotidiano. Em 1921 o jornal “New York Herald” publicava um artigo sobre a Terapia Ocupacional. Existe um trecho do mesmo que se refere a um veterano que perdeu parte da sua visão e que expõe a intervenção que recebia em terapia ocupacional como “Não sabia muito bem o que fazer comigo mesmo, até que veio a rapariga de azul e me iniciou na construção de malas. Estou a fazer uma para oferecer à minha esposa”. O artigo remata com a frase final “O comum incapacitado veterano da grande guerra quer fazer algo no hospital para matar o tempo.”

Hoje em dia, parece-nos antiquado e fora do contexto alguém referir-se à nossa intervenção como algo para “matar o tempo” ou que os nossos clientes não sejam capazes de se lembrar do nome da nossa profissão. Contudo, por muito longínqua que esta realidade nos pareça, em 2018, grande parte da população ainda não conhece a nossa profissão e, quando conhece, atribuem-nos vários nomes ou acreditam que só servimos para ocupar o tempo de alguém. Embora tudo isto nos pareça injusto, a realidade é que as nossas intervenções ainda não vão totalmente de acordo com a Terapia Ocupacional contemporânea. É importante colocarmos o nosso trabalho de décadas (ou às vezes poucos meses) em causa e analisar se os nossos clientes seguem uma intervenção que os leva ao desempenho ocupacional que pretendem, que dela obtêm um envolvimento ocupacional significativo e um maior sentimento de competência-eficácia, ao mesmo tempo que respeitamos a sua identidade ocupacional e os objetivos terapêuticos que os mesmos escolheram para si. Se o nosso trabalho seguir os valores da nossa profissão, mais facilmente a mesma passa a ter importância e impacto na vida dos clientes.

Assim, baseámos-nos no artigo “Five Things Patients and Providers Should Question”, da American Occupational Therapy Association para que deixemos de ser apenas “a rapariga (ou o rapaz) de branco e verde”:

Intervenção com atividades sem propósito para o cliente (encaixes, mobilizações, apertar molas, produtos infantis em adultos, etc.)

Atividades com propósito são aquelas que fazem parte do quotidiano e que trazem significado, relevância e são necessárias ao cliente, tais como higiene pessoal, cuidar da casa, escola ou trabalho – e são o centro da premissa da Terapia Ocupacional. Os estudos revelam que, recorrer a atividades (e ocupações) com propósito e significado na intervenção, é um motivador intrínseco para os clientes. Tais atividades podem aumentar o nível de envolvimento ocupacional, a atenção, a endurance, o desempenho motor e a tolerância à dor, resultando em melhores resultados para o cliente. As atividades com propósito desenvolvem as competências da pessoa e levam-na a atingir os objetivos pessoais e terapêuticos. Pelo contrário, atividades sem propósito não estimulam o interesse ou a motivação, resultando na redução da participação ocupacional e, consequentemente, dos resultados esperados.

Utilização de intervenções baseadas na estimulação sensorial em crianças ou adolescentes sem avaliar e documentar as possíveis dificuldades no processamento e integração de informação sensorial.

Muitas crianças ou adolescentes são afetados por dificuldades no processamento e integração das sensações, o que afeta negativamente a sua capacidades para participar em ocupações significativas. O processamento e integração é algo complexo e resulta em padrões individuais de disfunção que devem ser trabalhados de forma personalizada. As intervenções que não se baseiam na avaliação documentada dessas dificuldades, podem produzir resultados ineficazes ou negativos. Assim, é imperativo que se avalie e documente dificuldades específicas do processamento sensorial antes de iniciar uma intervenção como a Integração Sensorial de Ayres, mantas com peso ou dietas sensoriais.

Não utilizar modalidades terapêuticas com recursos a agentes físicos sem recorrer a atividades com propósito e ocupações significativas.

O uso exclusivo destes recursos (Manga de Margaret Johnstone, eletroestimulação, banhos de contraste, dispositivos mecânicos) como intervenção terapêutica sem impacto direto no desempenho e envolvimento ocupacional, não é considerado Terapia Ocupacional. Estes agentes podem ser integrados numa intervenção holística de Terapia Ocupacional para preparação do envolvimento em ocupações ou em simultâneo com o desempenho numa ocupação. De ressalvar, que é primordial que o cliente seja integrado numa equipa multidisciplinar onde as capacidades motoras e sequelas são foco do fisioterapeuta e/ou de outro profissional de saúde. Sendo que as intervenções dos profissionais se devem cruzar, na medida em que vêm o cliente como um todo e por isso a informação deve ser do conhecimento de qualquer membro da equipa incluído no caso e que devem trabalhar em conjunto.

Utilizar o sistema de roldanas nas pessoas com hemiplegia.

O exercício com roldanas é apenas um exercício e não uma ocupação ou atividade com propósito. Para além disso, o uso das roldanas em clientes com hemiplegia do membro superior no casos de AVC ou devido a outra situação clínica é considerado muito agressivo para o ombro e deve ser evitado pois apresenta um risco para o cliente de desenvolver o síndrome do ombro doloroso.

Recorrer a intervenções de estimulação cognitiva (ex: tarefas de papel e caneta, software de treino cognitivo, jogos de simulação de ir às compras ou de outras atividades) sem aplicação direta no envolvimento e desempenho ocupacional.

Para promover o desempenho ocupacional , as intervenções cognitivas devem estar inseridas numa ocupação significativa para o cliente. O uso da estimulação cognitiva não baseada na ocupação irá resultar no não-envolvimento ocupacional e possível desvalorização da identidade ocupacional da pessoa.

//www.choosingwisely.org/societies/american-occupational-therapy-association-inc/

//www.otcentennial.org/article/article-from-1921-describes-how-ot-hastens-cures-for-wounded-wwi-veterans?promo_name=1921-article&promo_creative=Centennial&promo_position=hero&_ga=2.80761751.1613134046.1509246998-1967298965.1493496509#at_pco=smlrebh-1.0&at_si=5bfffe62f5137304&at_ab=per-2&at_pos=0&at_tot=3  

 

 

 

 

 

 

 

 

1 Response to “5 Coisas que os Clientes e os Terapeutas Ocupacionais deveriam sempre pôr em causa”

  • Ana cristinaDezembro 7, 2018 at 9:00 pm Responder

    Parabéns pelo excelente alerta

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